A corrida pelo carbono faz empresas esquecerem da economia circular?
O Brasil tem 6% de participação num mercado global de crédito de carbono que já movimenta US$ 100 bilhões por ano, segundo o último relatório de precificação de carbono do Banco Mundial. Ao mesmo tempo, a taxa de circularidade da economia brasileira, o quanto de material volta para a cadeia produtiva em vez de virar resíduo, está em 1,3%. É a mais baixa entre as grandes economias emergentes, e nem chega perto da média global, que também está caindo: foi de 7,2% para 6,9% entre 2023 e 2024.
Dois números, uma mesma agenda climática, direções opostas. E aqui vai a pergunta que tenho ouvido cada vez mais em reunião do comitê ESG: a empresa está investindo em sustentabilidade, ou só está comprando tempo com o carbono?
A questão é que carbono e economia circular não competem pelo mesmo dinheiro só na teoria. Na prática do dia a dia corporativo, compete sim — por orçamento, por atenção da diretoria e por espaço na pauta do conselho. E o carbono, hoje, está ganhando essa disputa com folga.
O primeiro motivo é regulatório. Em dezembro de 2024 o Brasil sancionou a Lei 15.042, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, o SBCE, já em fase de implementação. O mercado regulado projeta créditos entre R$ 50 e R$ 120 por tonelada de CO2 equivalente, com potencial de movimentar até US$ 300 bilhões por ano no mundo todo. A Estratégia Nacional de Economia Circular, criada no mesmo ano, não tem esse tipo de musculatura: falta instrumento de financiamento estruturado, e uma pesquisa da CNI de junho deste ano mostra que 25% das empresas apontam o custo do crédito como o principal entrave para investir em circularidade. Quando um lado tem regra clara e dinheiro escrito em decreto, e o outro depende de boa vontade e linha de crédito cara, não é difícil adivinhar para onde o caixa vai.
O segundo motivo é que carbono é fácil de vender e circularidade não. Uma tonelada de CO2 evitada tem preço, tem comprador, cabe numa planilha e num slide de apresentação para investidor. Circularidade não cabe: envolve intensidade material, taxa de reuso, logística reversa, ecodesign, dezenas de variáveis que resistem a virar um número bonito de relatório. Não é à toa que 57% das indústrias brasileiras dizem adotar pelo menos uma prática circular, segundo a própria CNI, e mesmo assim a taxa de circularidade do país segue travada na casa de 1%. A empresa até faz a coisa certa em algum canto da operação, mas isso não aparece no indicador agregado,, e o que não aparece direito no indicador, historicamente, é o primeiro a perder verba.
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O terceiro motivo é o prazo. O carbono já está gerando US$ 100 bilhões agora. A economia circular, no mundo todo, é estimada em US$ 355 bilhões, mas só lá na frente, em 2032. Para um CFO respondendo por resultado trimestral, a diferença entre “está acontecendo” e “vai acontecer daqui a seis anos” pesa mais do que qualquer slide de propósito.
Agora, o contra-argumento também merece espaço, porque ele é real: carbono e circularidade não são inimigos. A reciclagem de alumínio consome 95% menos energia que a produção primária, então cada tonelada reciclada também é carbono evitado. Setores como calçados e biocombustíveis, com mais de 80% de adoção de práticas circulares, mostram que dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. O problema não é o mercado de carbono existir. É a lógica que ele reforça sem querer: compensar é mais rápido, e mais fotogênico num relatório de sustentabilidade, do que redesenhar um processo produtivo inteiro. Crédito de carbono compra tempo. Economia circular exige mexer na fábrica. E entre as duas, a maioria das empresas segue escolhendo a que dá menos trabalho lá dentro.
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Se o SBCE realmente vai destravar bilhões de investimento climático no Brasil nos próximos anos, o momento de amarrar essa ponta é agora: condicionar parte da elegibilidade de crédito a metas de circularidade, ou usar receita do mercado regulado para bancar logística reversa e reciclagem industrial, hoje travadas justamente pelo custo do capital, segundo a própria indústria.
Sem isso, o Brasil corre o risco de vender ao mundo uma tonelada de carbono compensada e continuar, na prática, com um dos índices de circularidade mais baixos do planeta.
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de ciclovivo.com.br.